Motores/Energia – 20 Jul 2026
Na Austrália, um conselho municipal vai testar ainda este ano o primeiro sistema de semáforos com Inteligência Artificial (IA) do país. O objetivo é perceber se a tecnologia consegue gerir o trânsito de forma mais eficiente do que os semáforos tradicionais.

A cidade de Moreton Bay, situada a norte de Brisbane, na Austrália, vai instalar um novo sistema de sinalização inteligente num cruzamento suburbano em Petrie.
O objetivo é perceber se a tecnologia consegue gerir o trânsito de forma mais eficiente do que os semáforos tradicionais. Caso os resultados sejam positivos, o sistema poderá vir a ser replicado noutras cidades australianas.
À primeira vista, parece uma simples atualização tecnológica. Contudo, segundo um artigo publicado no The Conversation, esta mudança levanta questões relevantes sobre justiça, segurança e planeamento urbano.

O cruzamento da Moreton Parade com a Paper Avenue, em Petrie, onde serão testados semáforos com IA. Crédito: CM de Moreton Bay
Como funcionam os semáforos “inteligentes”
Um semáforo tradicional funciona como um temporizador, seguindo ciclos fixos, ainda que ajustados por sensores. O resultado é previsível, mas nem sempre eficiente, pois pode deixar uma via vazia com sinal verde enquanto outra acumula fila com sinal vermelho.
Por sua vez, um semáforo com IA funciona mais como um árbitro, estando atento ao que se passa no cruzamento.
Além de recorrer a sensores e dados de tráfego em tempo real, pode ainda cruzar essa informação com padrões históricos ou fatores externos, como o clima ou a realização de eventos, por forma a ajustar os tempos de sinal de forma dinâmica.
De forma adaptativa, pode dar mais tempo de verde a uma via mais movimentada, prioridade a um autocarro ou mais segundos de travessia a crianças perto de uma escola.
Os resultados noutros países mostram potencial: em Pittsburgh, nos Estados Unidos, um projeto-piloto permitiu reduzir o tempo de viagem em 25%, o tempo de espera em 40% e as emissões estimadas em mais de 20%.
Desafios destes semáforos inteligentes
Segundo Seyedali Mirjalili, professor de IA na Faculdade de Negócios e Hotelaria da Universidade Torrens, para o The Conversation, o maior desafio é ético.
Imagine-se um cruzamento junto a uma escola, às 8h30: carros em fila, um autocarro cheio de crianças à espera, alunos a querer atravessar e um ciclista também parado. A quem deve a IA dar prioridade?
Estas escolhas moldam, na prática, o desenho das cidades:
- Se os automóveis forem sempre privilegiados, mais pessoas tenderão a continuar a conduzir.
- Se autocarros, ciclistas e peões forem beneficiados, a cidade pode tornar-se gradualmente menos dependente do automóvel.
Outro desafio é a cibersegurança, uma vez que sistemas de semáforos ligados em rede são um alvo apetecível para ciberataques.
Um agente malicioso poderia, em teoria, alterar os tempos de sinalização, provocar congestionamentos ou até criar situações de perigo com sinais verdes em simultâneo em direções opostas.

Tecnologia pode ser útil, mas precisa de regras claras
Os especialistas defendem que os municípios não devem adotar esta tecnologia apenas pelo entusiasmo à volta da IA, sendo essencial definir os objetivos públicos: segurança junto às escolas, prioridade aos transportes públicos em corredores movimentados, ou mais tempo para os peões em zonas comerciais.
Além disso, será fundamental garantir transparência sobre os dados recolhidos, testes regulares de segurança, e um modo de segurança, que permita um regresso automático a tempos fixos caso o sistema falhe ou seja atacado, com operadores humanos sempre prontos a intervir em caso de emergência.
Um semáforo inteligente deverá funcionar com bons dados, regras claras e um ser humano sempre pronto para assumir o controlo.
Se o teste em Petrie confirmar as promessas de menos congestionamento, menos emissões e maior segurança, é possível que outros países considerem a tecnologia, incluindo Portugal.
Com centros urbanos cada vez mais congestionados e uma pressão crescente para tornar as cidades mais sustentáveis e amigas do peão e do ciclista, semáforos capazes de gerir o trânsito de forma dinâmica poderiam ser uma solução interessante para cruzamentos problemáticos nas grandes cidades portuguesas.
Fonte: PPLWARE
